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Drama familiar abre o Cine Ceará

O 18º Cine Ceará teve um bom início com as apresentações de “Elegia Friulana”, fora de concurso, e o primeiro longa-metragem em competição, “Nossa Vida Não Cabe Num Opala”. “Elegia Friulana” é da autoria de Fernando Birri, um dos documentaristas referenciais entre seus pares e fundador de duas das mais importantes escolas de cinema do mundo – a Documental de Santa Fé, na Argentina, e a de Cinema e Vídeo de San Antonio de los Baños, em Cuba. No filme, Birri faz uma homenagem aos seus ancestrais italianos, que viveram naquela região e, em especial, ao avô, deportado da Itália para a Argentina em razão de suas idéias anarquistas.
O filme é composto de imagens de época, mescladas a filmagens contemporâneas da região. Compõe um painel poético e político atravessado por um canto anarquista que diz ser a “a Terra a nossa pátria e a liberdade a nossa lei”. Tradução perfeita das idéias libertárias que acabaram não vingando no mundo das coisas reais, mas que compõem um horizonte de esperança, um programa para quem, como Birri, “ainda não perdeu a esperança em um outro mundo possível”, como disse no palco.
A grande surpresa da noite foi a apresentação de “Nossa Vida Não Cabe Num Opala”, de Reinaldo Pinheiro. Houve quem pensasse se tratar de uma comédia, em especial pelo fato de Pinheiro haver feito, anos atrás, um curta de sucesso chamado “BMW Vermelha”, com um hilário Otávio Augusto no papel do favelado que ganha um carrão num concurso e não sabe o que fazer com ele. Pois bem, nada a ver. O longa, baseado numa peça de Mário Bortolotto, pende mais para a tragédia, embora tenha seu lado cômico, em geral de humor negro.
É a história de uma família de quatro irmãos (três homens e uma mulher). Os rapazes vivem no limite da criminalidade, dedicando-se ora ao furto de carros ora ao boxe, mas esse boxe de periferia, fora do circuito oficial, quase um vale-tudo sórdido. A mulher (Maria Manoella) é uma pianista de churrascaria, vítima constante do assédio masculino. Muito bem ambientado, numa região qualquer da pequena classe média decadente de São Paulo, nos confins da periferia – mas não dentro dela. Não são favelados, também não chegam a classe média. Os rapazes são obcecados pela memória de um pai que já morreu (Paulo César Pereio) e lembram um pouco a família Parondi, de “Rocco e Seus Irmãos”.
Aliás, indagado sobre esse possível diálogo com Visconti, o diretor Reinaldo Pinheiro responde que efetivamente que “Rocco” é uma das matrizes do filme e que ele pediu que a equipe toda assistisse ao clássico de Visconti. “É também uma das referências de Bortolotto, o autor da peça”, afirma o diretor. Mas, claro, influências são assim; elas se somam e se diluem em contextos completamente diferentes. Se Visconti usava a sua família em desagregação para falar do conflito entre o sul subdesenvolvido e o norte industrializado na Itália, Pinheiro traz o seu núcleo de personagens para mostrar um país socialmente dilacerado no interior de uma mesma cidade.
O diretor contou ainda uma curiosidade a respeito do título. Disse que, quando estava tudo pronto, um advogado lembrou que para fazer o filme com o título original da peça – “Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet” – eles teriam de pedir autorização para a General Motors. Houve várias reuniões com os executivos da empresa norte-americana e não se chegou a um acordo. Um dos diretores disse ao cineasta: “Você acha que a gente gasta milhões de dólares para manter a marca do Chevrolet e vamos vê-la num filme que fala da dissolução da família?”. E não autorizaram.
Reinaldo teve de mudar para o título aproximado de “Nossa Vida Não Cabe Num Opala”. Mas, mais uma vez, foram obrigados a falar com a empresa. E agora o resultado foi positivo. Deram sinal verde, com duas explicações: Opala é um produto, não uma marca; além disso, esse carro já está fora de linha. Reinaldo aceitou com um humor a decisão: “O filme também é fora de linha.” De fato.

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abril 15, 2008 - Posted by | cinema

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