Universo Cultural

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Olho vivo e Faro fino

Móbile: construção que pode ser posta em movimento no ar. Peça de escultura formada de elementos individuais, feitos de material leve, suspensos artisticamente por fios, e que oscilam ao vento. Assim é a escultura criada por Alexander Calder que se tornou um clássico do século 20. Assim é o programa criado por Fernando Faro em 1963, exibido até 1967 na Tupi, que se tornou um clássico da liberdade de criação na TV brasileira. Quatro décadas depois, Móbile ganha novo fôlego, nova leitura e reestréia na TV Cultura em 28 de maio, às 22 horas, como parte da renovação por que passa sua programação.
(Flávia Guerra)
Móbile, como diz a introdução que o apresenta, não é um programa como aqueles a que você está habituado. Não tem começo, meio e fim. É como se fossem peças soltas que a gente vai juntando. Não fazem um sentido. Não têm uma história. Começa quando você começa a assisti-lo. E, ao sabor do acaso, vai se modificando, tomando outra forma, ganhando outro sentido, como se fosse um móbile.

Idealizado por Faro, que também criou o lendário Ensaio, Móbile causou estranhamento, mas ganhou fãs incondicionais. ”A gente adorava ver grandes textos da literatura serem recitados por grandes atores. Havia literatura, teatro, música, artes plásticas, dança… Tudo misturado. Quando a gente conta, parece simples, mas era tudo muito novo e fascinante”, rememora Elifas Andreato, que passou pelo set de gravações do novo Móbile há pouco mais de dez dias. De espectador , parceiro e amigo de Faro, Andreato (um dos grandes designers, ilustradores e artista de capas de discos brasileiros) passou a convidado do segundo programa, que vai ao ar em junho. Durante a gravação, o Estado acompanhou o modo sutil com que Faro se faz tão presente e, ao mesmo tempo, quase imperceptível em seu set. Andreato comentou uma por uma capas memoráveis que criou para a MPB. Chico Buarque, Clara Nunes, Vinícius e Toquinho, Adoniran Barbosa, Tom Zé, Paulinho da Viola, Elis Regina… Nomes e capas interativas (muito antes que o termo fosse banalizado pela informática) se sucediam e se misturavam ao relato emocionado. ”Quer me fazer chorar? Vai conseguir. Sabe que te amo. Aprendi demais com você”, emociona, e faz emocionar, um artista marcado pela ”forma Faro” de produzir TV e cultura. Faro marcou época com Ensaio, o programa de entrevistas a grandes nomes da música brasileira que até hoje é exibido pela TV Cultura, copiado por outras emissoras e referência quando se quer falar da TV que não emburrece mas enobrece o artista e o espectador.

Assim como Ensaio, Móbile marcou época. Até mesmo quem nunca assistiu sabe de cor passagens inteiras, como a leitura do monólogo de Molly Bloom no clássico Ulisses de James Joyce ou as leituras e comentários de Juca de Oliveira para grandes textos do teatro.

Quem via adorava. Quem não viu não verá mais. Simplesmente porque não existem cópias dos programas originais. ”Joguei tudo no lixo. Assim que o programa acabava, eu pegava as fitas e jogava fora”, explica Baixo, como ele chama e é chamado por todos. Por que matar assim a cria? ”Porque não queria ficar preso à repetição. Não queria nada engessado para o futuro. Guardar programas era ir contra o princípio que havia me inspirado a criar o programa.”

Fadado a virar lenda, Móbile volta agora ao ar graças ao pedido de Paulo Markun, presidente da Fundação Padre Anchieta (mantenedora da TV Cultura), que pediu a Baixo para recriar o programa. ”Voltei a fazê-lo porque Markun me pediu. Estou feliz. Quando criei o programa, não pensei em um formato fixo. O primeiro foi sobre o Kafka. E tinha de ser livre e começar a ser visto de qualquer ponto. Hoje ainda quero fazer um programa descompromissado, sem a neurose da audiência.”

Tudo ao acaso, em constante mutação, mas calcado em valores densos e precisos. Não é por acaso que o primeiro novo programa começa, após breve ”dança silenciosa” de Ana Catarina Vieira, com Ouro de Tolo (a canção, que vale por tantos tratados filosóficos, de Raul Seixas) recitada por Ana Catarina e Ângelo Madureira. A propósito, Faro estréia em junho na direção de um espetáculo de dança e assina O Nome Científico da Formiga, nova obra de Ana Catarina e Madureira.

A uma primeira olhada, como a escultura, Móbile pode causar estranheza no espectador de hoje, acostumado ao ”método Pavlov” de adestramento a que é submetido por programas que são sempre o ”mais do mesmo”. Mas a graça de suas formas livres valem a segunda olhada. Móbile é, com sua maleabilidade, a prova de uma resistência. E, em um resgate do que deixou saudade, Baixo está (re)convocando seu exército para participar do programa. Por isso, Juca de Oliveira volta e conta como foi sua estréia nas artes cênicas.

Antônio Abujamra dá nova vida ao clássico monólogo de Molly Bloom. A literatura recitada na TV acaba dando um sabor inédito ao discurso repleto de nuances de Joyce. O texto, informativo, explica: ”James Joyce também fez parte do movimento dadaísta e foi o autor de Ulisses, o grande romance do século 20, que tem nas suas últimas páginas o monólogo interior Molly Bloom.”

O texto é narrado por Antônio Abujamra enquanto atriz Lavínia Pannunzio dá forma às palavras rascantes de Joyce. É no público jovem que Baixo pensa quando concebe com rara liberdade cena tão lasciva e, ao mesmo tempo, erudita. ”A linguagem da TV em si é redundante. Você sempre assiste à mesma piada, à mesma novela.Quero provocar. E falar com os jovens, principalmente os que fazem cinema, música. Escreva isso. Aliás, faça mais, traga-os aqui”, convoca este jovem que completa 81 anos em 21 de junho.

(Fonte: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080422/not_imp160570,0.php)

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abril 22, 2008 - Posted by | Sem-categoria |

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