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Adeus, Elias dos piracicabanos

Elias dos Bonecos, um dos mais aclamados artistas populares de Piracicaba, está sendo velado na Câmara de Vereadores e será sepultado hoje, às 16h
Desde ontem, às 16h15, as mãos do artista popular Elias Rocha, 76, conhecido como Elias dos Bonecos, não trabalham mais. Internado na Santa Casa de Misericórdia desde o último dia 28, ele morreu, segundo a família, em decorrência de complicações de um câncer, do qual sofria há vários anos. Seu corpo está sendo velado na Câmara de Vereadores e o sepultamento será hoje, às 16h, no Cemitério da Vila Rezende.
Os bonecos do Elias – assim eram chamadas as suas obras de arte – já foram incorporados à paisagem do rio Piracicaba; seu cuidado com as flores, jardins e árvores revelavam uma quadra da rua XV de Novembro próxima à avenida Beira-Rio, onde morava, como um lugar sagrado. No coração da vizinhança só um sentimento: a perda de um grande amigo.
“Ele até pintava a nossa calçada”, se lembra João Gilberto Figueiredo, 60, que era vizinho de Elias há mais de 22 anos. “Me lembro que conservava as árvores e ficava muito feliz quando chegava o dia da Festa do Divino”, conta. “Eu gostava muito dele. Dei muitas roupas para ele fazer seus bonecos. Ele os espalhava pela rua e eu adorava vê-los”, conta a vizinha Ruth Almeida, 80.
“Elias era uma pessoa muito querida. O conheço desde que nasci. Ele será eterno porque alma de artista não morre. Seus bonecos continuam aí, vivos. É uma grande perda”, afirma Vera Lúcia Jóos, 61. Amigo de Elias desde a infância, Orlando Louvadini, 73, fala do Elias parceiro. “A gente cresceu junto. Estudamos no Senai, onde ele se formou como ajustador mecânico. No final do curso, em 1954, eles davam as peças para os alunos levarem embora, e o Elias disse que tinha um presente para mim. Era uma morsa mecânica, que tenho até hoje”, relembra Louvadini. “Para mim, falar do rio é falar do Elias. São uma coisa só.”RELEVÂNCIA – Sobrinho e afilhado de Elias, Daniel Rocha, 42, conta que o tio era uma pessoa de quem todos gostavam. “Ele falava que a mãe dele era o rio, de onde sempre tirava suas energias, e que os bonecos eram os pescadores de uma Piracicaba antiga, que ele se lembrava muito bem e nunca quis esquecer”, diz Rocha, que contou que antes do tio ser internado na Santa Casa de Misericórdia, ficou três dias no pronto-socorro do Piracicamirim aguardando vaga em hospitais. “É muito triste você ver quem precisa de atendimento largado em uma cama.”
“Tio Elias dava sua vida pelo rio. Deixava a margem do Piracicaba viva, cuidava até da sujeira nas encostas”, completa o sobrinho Samuel Rocha, 46, que até as 18h30 de ontem estava indignado porque a Câmara Municipal não tinha se posicionado para que o velório fosse nas suas dependências. Por coincidência, o vereador José Pedro Leite da Silva (PR) passava pelo local na mesma hora e foi questionado pela reportagem do Jornal de Piracicaba sobre tal silêncio. “Fiquei sabendo da morte agora”, disse Zé Pedro.
Prontamente, o vereador entrou em contato com Evandro Evangelista, chefe do cerimonial da Câmara. “Ele era uma pessoa representativa. Fez muito pela cidade”, disse Zé Pedro à Evangelista várias vezes. Posteriormente, o vereador telefonou para a diretora administrativa da Câmara, Kátia Mesquita, que entrou em contato com o presidente da Câmara, João Manoel dos Santos (PTB), para viabilizar o velório. Vale lembrar que recentemente personalidades como os empresários Dovílio Ometto e Juliana Dedini Ometto, e o presidente da Caterpillar, Natal Garcia, foram velados no local.
“A Câmara é um espaço do povo para o povo”, disse Santos ao JP. “Quem autoriza as pessoas que serão veladas na Câmara é o presidente. Antes da nova resolução que encaminhei ao Plenário, somente vereadores e deputados poderiam fazer uso do espaço, mas isso não é correto. Agora a resolução determina que podem ser velados (ex) vereadores e deputados e personalidades locais. Se alguém gostar ou não, é o presidente quem libera e com Elias não poderia ser diferente. A cidade deve isso a ele. É o mínimo que poderíamos fazer”.OPINIÕES – Para o prefeito Barjas Negri, Elias foi um símbolo da defesa do rio Piracicaba. “A colocação dos bonecos dele ao longo das margens personifica a luta da cidade em defesa do seu rio. Sua morte representa uma perda significativa para o meio ambiente, para a arte, para a sociedade. Seus bonecos estão imortalizados. Vou recomendar à Secretaria de Ação Cultural que os bonecos sejam mantidos em exposições realizadas pela cidade”, disse.
“O Elias era o representante do que há de mais puro e primitivo na arte da cidade, o que tecnicamente chamamos de arte de raiz”, disse Rosângela Camolese, que deixou o cargo de secretária da Ação Cultura anteontem. “Inovador e incentivador, ele deixou sua marca ao longo do rio para que as pessoas admirassem. Inspirou outros artistas a terem cuidado com o meio ambiente. Deixou um legado às futuras gerações do amor às coisas da terra e à sua gente. Vai deixar saudade”.

(Fonte: http://www.jornaldepiracicaba.com.br/)

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abril 2, 2008 Posted by | Arte Popular, Elias dos Bonecos | Deixe um comentário