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”Morrison loiro” sobe ao palco com Doors

Jim Morrison é loiro, veio do Tennessee, tem 36 anos, 1,82 metro de altura, 74 quilos, e sempre tocou em bandas de segunda categoria, como Fuel, The X”s e Circus Diablo.

Mas é claro que ele não é Jim Morrison. Ele é Brett Scallions, o cantor que está na linha de frente do que sobrou da mítica banda sessentista The Doors. Scallions foi recrutado por Ray Manzarek e Robby Krieger em março de 2006 para substituir Ian Astbury, do The Cult (que era o vocalista da última vez que vieram aqui, em 2004, rebatizados como The Doors of 21st Century).

O que sobrou dos Doors não pode ser chamado The Doors por causa de uma ação que o ex-baterista da banda, John Densmore, ganhou em 2005, e que impede o grupo de excursionar com o antigo nome. ”Já existem bandas cover demais dos Doors”, disse um irritado Densmore para justificar sua ação.

Brett Scallions estava desempregado após ter sido atingido no rosto por um golpe de guitarra enquanto tocava no Fuel – o dono da banda, o baterista Kevin Miller, dizia que ele não conseguiria mais cantar por conta do ferimento. Também houve disputas em torno de dinheiro e diferenças artísticas.

Então, um dia, o agente de Scallions ligou para ele e disse: ”Tenho a turnê perfeita para você.” Scallions duvidou: ”Quem são eles?” Quando o agente falou que eram The Doors, ídolos de Scallions desde que era garoto, ele voou de Nova York, onde vive, para Los Angeles para fazer uma série de testes. Não estava certo que conseguiria o emprego. ”Não me lembro se algum dia eles disseram ”você está na banda”. Apenas fiz algumas jams com Ray e os rapazes e um dia eles começaram a conversar comigo como se eu já fosse um deles”, afirmou.

”Eu não tento fazer mímica de Jim Morrison”, ele explica. ”De jeito nenhum. Não quero ser Jim Morrison. Já é difícil o suficiente ser eu mesmo. Eu só penso que preciso fazer justiça àquelas canções e cantá-las tão dignamente como eu puder.”

”Grande voz, grande presença de palco. Ele espreita como um gato. Veste um casaco de couro como se fosse de folhas de alcaçuz”, disse Ray Manzarek sobre o novo vocalista. Muitos fãs já festejam sua voz de barítono, adequada ao repertório de Morrison, mas outros tantos das antigas também torceram o nariz para suas primeiras apresentações.

Quando o Doors esteve aqui pela última vez, em 2004, com Ian Astbury nos vocais, era fácil perceber que aquilo não ia durar muito. Astbury, que tem no currículo a responsabilidade por ter acabado com o The Cult durante uma turnê no Brasil, não cumpria a agenda direito, não estava disponível para as entrevistas na hora certa, atrasava ensaios. Mas era um grande vocal na frente do que sobrou dos Doors.

No Brasil, ficou já famosa a versão de Break on Through que eles fizeram no Rio (com ritmistas da Mangueira) e em São Paulo (com sambistas da Vai-Vai tocando tamborins, caixas e surdos). A fusão do blues elétrico e dos improvisos intermináveis do som dos Doors (que vive especialmente nos teclados de Manzarek) com o samba de rua brasileiro ficou bem bacana.

Jim Morrison morreu de ataque cardíaco em sua banheira num apartamento em Paris em 1971, aos 27 anos. Sua vida de excessos certamente contribuiu para o desfecho, mas foi justamente a persona da qual se investiu (as muitas: o Rei Lagarto, o xamã, o possuído) que garantiu sua eternidade.

A banda surgiu em Los Angeles em 1965, após um encontro numa praia. Morrison e Manzarek freqüentavam a faculdade de cinema da Ucla (Universidade da Califórnia). Morrison recitou um de seus poemas (que virou música), Moonlight Drive. O nome do grupo foi tirado de livro de Aldous Huxley sobre a mescalina, mas é uma citação de William Blake por Huxley (”As Portas da Percepção”).

O mix musical também virou referência. O guitarrista Robbie Krieger falava em perseguir a liberdade dos improvisos jazzísticos circulares de John Coltrane. O blues estava no sangue de Morrison. Manzarek era a conexão elétrica.

Em 1980, quando foi lançado o livro Daqui Ninguém Sai Vivo, uma biografia do cantor californiano assinada por Danny Sugerman e Jerry Hopkins, o culto a Morrison reviveu e aumentou barbaramente mundo afora. Chegaram a roubar a lápide de seu túmulo em Paris uma vez, em 1990. Em 1993, quando celebravam seu 50º aniversário, milhares de viúvas e viúvos de Morrison fizeram uma noite de vigília para festejá-lo.

Ressuscitar uma banda como os Doors com um novo vocalista é algo temerário. Mas Manzarek não se intimida. ”Dizem que (nosso retorno) é uma vergonha? Bem, é uma vergonha”, disse o tecladista bonachão ao Estado, em 2004. ”Não, eu estou brincando. O que tenho a dizer a esse pessoal é: se vocês não querem ver os Doors, não venham aos shows. É simples”, afirmou. ”Jesus Cristo também não está mais vivo, mas existem as igrejas. Jim Morrison está no Paraíso, mas nós estamos celebrando a música dele. O que há de errado nisso?”

Serviço

Riders on The Storm. HSBC Brasil. Rua Bragança Paulista, 1.281, 4003-1212. Hoje, 21h30. R$ 120 a 400

abril 10, 2008 Posted by | The Doors | Deixe um comentário